| ebonet.net: arte e cultura: Luis Kandjimbo |


| 1. A narrativa Literária Angolana e a sua identidade. |
| 2.
A geração de 1890: Pedro Félix Machado, José
de Fontes Pereira e Joaquim dias Cordeiro da Matta |
| 3. Os narradores da Geração de 48: O caso de Domingos Van-Dúnen e Uanhenga Xitu |
| 4. O Exercício diferencialista da linguagem, a sátira, a ironia e a verdade histórica na geração de 60 |
| 5. Boaventura Cardoso: A voz representativa da geração de 70 |
| 6. Os narradores da geração de 80 |
| 7.
Esboço par
As dedicatórias
inscritas nas epígrafes
dos poemas em Espontaneidades
da Minha Alma daquele autor, permitem inferir,
na perspectiva da intertextualidade exoliterária, a existência
de um universo de leitores,
entre naturais de Angola e Portugal, cuja competência
é corroborada pela circulação
de obras de autores
europeus tais como Victor
Hugo, Thiers, Alexandre Dumas, Walter Scott.
Com efeito, os primeiros textos romanescos escritos por naturais
de Angola são da autoria de membros
da geração de
1890. Trata-se de
Scenas de África e O
Filho Adulterino, obras de Pedro Félix Machado publicadas
na segunda metade do século XIX. São igualmente conhecidas referências
de textos narrativos
escritos por Joaquim
Dias Cordeiro da Matta, embora não tenham chegado
ao nosso conhecimento por não terem sido publicadas, nomeadamente
O Loandense da alta e baixa
esfera, O Doutor Gaudêncio (romance). Mas, a prova inequívoca
da capacidade deste autor é-nos dada
pelo seu Repositório de Coisas Angolenses, uma compilação de textos
contendo informações
de variável importância para a história social e política de Angola
no século XIX.
À semelhança do que se
verifica em outros espaços africanos de colonização europeia, também em Angola emerge um
romance colonial de pendor exótico e assente na mistificação racialista.
Forma-se um conjunto de textos centralmente motivados por uma certa
“missão civilizadora” atribuída
a personagens brancas, sendo as personagens de raça
negra secundárias e vítimas
na urdidura da história. É a chamada literatura ultramarina,
designação que na década de 60 é substituída pela de literatura colonial.
Em Angola, ela desenvolve-se a partir dos anos 20 deste século, com
os concursos de literatura colonial portuguesa, promovidos pela Agência
Geral do Ultramar e de estudos sobre Angola numa perspectiva etnográfica,
cobrindo as línguas e o folclore.
No parágrafo único do artigo 1º da Portaria nº 6.119 que em
1926 consagra a realização regular daqueles concursos de literatura
colonial, lê-se: “será sempre preferida a literatura na forma
de romance, novela, narrativa, relato de aventuras, etc. que
melhor faça a propaganda do império português
de além-mar, e melhor contribua para despertar, sobretudo na
mocidade, o gosto pelas causas coloniais.”
Os primeiros prémios de literatura colonial foram atribuídos
a dois autores portugueses, nomeadamente, Gastão de Sousa Dias com
África Portentosa e Brito Camacho com Pretos e Brancos. Um outro autor de assídua participação nos referidos
concursos e cujas obras e pertença
podem dar lugar a fecundos debates sobre a estética da narrativa
angolana, é Castro Soromenho. Em 1939
concorre com o livro de contos
Nhari. A opinião que o júri consagra em acta sustenta
que a obra se
ocupa do “drama de gente negra (…) a paisagem e a psicologia dos seus
protagonistas [é] interessante, cheia
de colorido e de vida
e, por vezes, a tese que encerram envolve moral e ensinamentos construtivos,
pela análise rigorosa e conscienciosa e bem deduzida da psicologia
dos indígenas e pelo rico colorido que sabe emprestar ao decorrer
da acção.” Em 1941, Castro Soromenho apresenta
Noite de Angústia,
a melhor obra do XIV concurso segundo o júri.
A progressiva expansão do romance, enquanto género do discurso
em prosa, deve-se ao florescimento de jornais nos fins do século XIX
e à institucionalização do ensino liceal, no princípio do século XX,
em cujo quadro se formam
leitores e potenciais
escritores. Assim, além das obras de Pedro Félix Machado e Joaquim
Dias Cordeiro da Matta, publicam-se nos anos 10 e 20 importantes narrativas,
algumas das quais de cunho autobiográfico como é História
de Uma Traição de Pedro da Paixão Franco.
O período que se segue ao fim do século XIX e à proclamação
da República em Portugal, além de ser
marcado pelo jornalismo
apologético da causa africana, é esmagador, caracterizando-se pela
atitude das autoridades coloniais que tomam as mais diversas providências
para cercear as liberdades
e reprimir a actividade jornalística dos naturais que defendiam, desde
o século passado, a autonomia e a independência de Angola.
Até à década de 30, apenas um romance
de António de
Assis Júnior, O Segredo da Morta,
dava sinais de autonomia de uma verdadeira ficção literária moderna,
devendo ser considerado o romance fundador. A sua publicação em livro
foi precedida de folhetins no jornal A Vanguarda. Só em 1934 viria a ser editado com a chancela
de A
Lusitânia. Publicou ainda Relato
dos Acontecimentos de Ndala Tando e Lucala, uma narrativa e ao
mesmo tempo um testemunho sobre
actividades de reivindicação reprimidas cujos actores constituíam
um grupo da elite local de que ele próprio fazia parte.
António de Assis Júnior é natural de Luanda onde nasceu em
13 de Março de 1887 e faleceu em 1960, em Lisboa.
Nos fins da década de 30, emerge o nome de Óscar Ribas, um
outro narrador que viria a confirmar os seus méritos com a publicação
do romance Uanga
em 1950. Segundo o ensaísta Mário António, Óscar Ribas
“surge como um elo necessário entre essa tradição em perigo
e os anseios de afirmação literária das gerações mais novas da sua
terra.” Mas os seus créditos firmam-se com Ecos da Minha Terra, publicado em 1952.
Em 1947, na ressaca do terrível período de repressão exercido
sobre a imprensa e o associativismo autóctones, durante o regime de
Norton de Matos, destaca-se no meio jornalístico e literário luandense
o nome de Domingos Van-Dúnem, que se estreia no Diário de Luanda com
o conto A Praga. Os seus companheiros de geração, entre os quais António Jacinto,
Viriato da Cruz e Agostinho Neto, têm uma intervenção reduzida ao
mínimo no domínio da ficção. Agostinho Neto publica em 1952 o conto
Náusea e em 1979 António Jacinto
traz à lume o
conto Vovô Bartolomeu. Com esta geração – a
Geração de 48 -, a grande
narrativa deixa de ser cultivada, para dar lugar à poesia. É uma geração
de poetas que se notabiliza
e em que avultam os grandes nomes da poética fundadora angolana.
Os narradores reaparecem na cena literária nas décadas de 50
e 60 com os nomes de Manuel Santos Lima, Luandino Vieira e Arnaldo
Santos. A estes vêm juntar-se outros autores como Henrique Abranches,
Manuel Rui, Pepetela e Uanhenga Xitu.
No panorama literário
angolano, a geração de 60, caracteriza-se pela sua dimensão ética
que se sedimenta no
compromisso político com a causa do nacionalismo, embora seja ela
a exercitar a introdução
de rupturas significativas no plano da linguagem. Por conseguinte,
uma boa parte dos seus integrantes vivem profundas experiências associadas
a tal compromisso como presos políticos condenados a pesadas
penas de reclusão. São os casos Agostinho Neto, António Jacinto,
Uanhenga Xitu, Luandino Vieira, António Cardoso. Outros engajam-se
no Movimento de Libertação Nacional dentro e fora
do país. Outros ainda actuam em grupos de intelectuais de
esquerda na Europa e em África.
Em A Geração da Utopia, Pepetela traça uma espécie de biografia romanesca
da sua geração com incidências sobre aquilo que eram
os ideais e o desencanto que suscita o comportamento do grupo
após a independência, particularmente com a instauração da II República
e o pluralismo político.
A geração de 70
é um prolongamento natural da anterior, já que não há grandes soluções
de continuidade. Observa-se ainda entre alguns dos seus membros uma
atitude ética que se
sobrepõe aos imperativos
estético-literários da sua época. Com ela chega-se à independência
e integram-na nomes como Jofre Rocha, Jorge Macedo, Arístides Van-Dúnem.
No plano da ficção, Boaventura Cardoso é sem dúvida o nome
de referência tendo em atenção a vitalidade da produção global
e as suas preocupações de ordem estética.
Apesar da vitalidade destas experiências de heróis e mártires,
vividas pelas duas gerações
sucessivamente anteriores, não nos parece que elas e a sua escrita
se tenham constituído em modelo de superação para a geração de 80.
Luandino Vieira foi um dos poucos a manifestar a frustração e o estado
de espírito que traduzem bem
essa ideia. Na entrevista
que concedeu a Michel Laban, debita
abundante reflexão e crítica sobre
a situação do escritor em Angola, em que o imperativo
do compromisso político por
mais relevante substituíra o imperativo estritamente literário.
No dizer de Luandino Vieira, “ o escritor se cortou do mundo do espírito
(…) os escritores mais velhos - salvo algumas excepções e mesmo assim
penso que eles não se sentem completamente realizados – são intelectuais
que vivem do capital acumulado durante os anos
todos (…) Muito embora viajem muito e participem em muitos
eventos internacionais, essas viagens são, de um modo geral, acontecimentos
em que o facto de ser angolano, resistente, de África Austral, do
MPLA, conta muito mais do que ser escritor…”[1]
Como se depreende das palavras de desencanto de Luandino Vieira, pode
dizer-se que no contexto
pós-independência ou pós-colonial, aquela atitude de compromisso dos
escritores perante o político privava o fundamento da actividade criativa
que é radicalmente crítica.Ao aceitarem o status
de funcionários do Estado, os escritores das gerações anteriores,
acabavam por comportar-se como homens emprestados à política.Mas é
essa cumplicidade com a razão de Estado que está na origem no tipo
de ensino praticado para a literatura.
Há, por essa razão, uma descontinuidade observável na escrita
de ficção e nos padrões estéticos, provocada pela excessiva valorização
de temas literários marcados pela ideologia política e sua introdução
nos manuais escolares. Mas tal constatação só faz sentido se a associarmos
ao facto de, à data da independência, os liceus e os três
centros universitários de todo o país serem frequentados por
um número de jovens angolanos, até aí nunca visto. Para um país que
saía de um colonialismo atroz, essa população de estudantes não deixava
de representar uma justificada expectativa. A política educacional
portuguesa para Angola colonial sofrera um profundo abalo a partir
de 1960.
Mas a filosofia que subjaz a tais modificações da política
colonial assenta ainda no assimilacionismo. Em 1970, Pinheiro da Silva,
o secretário provincial da educação de Angola, falava da “integração
dos portugueses africanos no modo de vida moral, espiritual e material
dos portugueses europeus”[2].
Segundo estatísticas da época, de uma taxa de matrícula inferior
a Moçambique no início das reformas, a população escolar angolana
do ensino liceal, por exemplo, passaria a 10779, uma cifra superior
a de Moçambique, que era de 19524. No ensino universitário, o efectivo
angolano, com 1557 era igualmente superior ao de Moçambique, registando
1145.
Ora, quando em 1975 se
realizava a ruptura no plano dos fundamentos do próprio Estado,
lançavam-se, nos anos imediatamente a seguir à independência, bases
para as necessárias reformas do sistema de ensino. A instauração de
um regime político de partido único e o seu desmantelamento nos fins
da década de 80, sugerem
a constatação de uma
reforma educativa inconclusa. Com efeito, passados mais de vinte de
independência, chega-se à conclusão de não ter sido ainda
realizada a reforma educativa. A comprová-lo
estão os produtos desse sistema de ensino pós-colonial, representando
os suportes da referida discontinuidade em relação à geração de 70.
Estamos a referir-nos à geração de 80. Apesar de marcada por experiências
catastróficas como as convulsões políticas de 1974-75, a repressão
de 27 de Maio de 1977 e a guerra civil, ela afirma-se
logo no princípio da década, através das manifestações associativas
e participações em concursos literários. É a vaga das Brigadas Jovens
de Literatura. As primeiras formam-se
nos principais centros urbanos, nomeadamente, Luanda, Lubango
e Huambo, coincidentemente cidades em que se concentram estabelecimentos
dos três níveis de ensino (liceal, pré-universitário e universitário),
aos quais se juntam os seminários e outros estabelecimentos eclesiásticos.
Uma das poucas revelações registadas no domínio da narrativa, é
José de Freitas que publica em 1979 Silêncio
em Chamas. Para a ficção narrativa angolana, a geração de 80 traz uma plêiade de nomes. Do interior destacam-se entre outros Cikakata Mbalundu, que com o autor destas linhas formava o núcleo dos fundadores da Brigada Jovem de Literatura da Huíla; Mota Yekenha, um dos poucos clérigos da geração que se dedica ao romance. Despontam igualmente alguns vozes femininas como Ana Major e Rosária Silva. Da diáspora pontificam Sousa Jamba e José Eduardo Agualusa. CRÓNICA
E LITERATURA
INFANTIL
O leitor está
perante uma síntese
que, privilegiando a narrativa de fõlego e o conto, no entanto
não perde vista
a crónica e as narrativas
da literatura infantil.
A representar a artesania destes dois géneros da prosa de ficção,
temos três nomes: Roberto Carvalho, Ernesto Lara Filho e
Sílvio Peixoto. Os dois
últimos cronistas
tiveram uma morte prematura, não fazendo já
parte do mundo dos vivos. Ernesto Lara Filho é na verdade um
dos maiores vultos da crónica em Angola. Nasceu em 1932 e morreu atropelado
em 1977. Sílvio Peixoto
era natural de Malanje onde nasceu em 1962. Morreu em 1995, num acidente
de aviação. No domínio da
literatura infantil destacam-se
Dario de Melo, Octaviano Correia, Maria Eugénia Neto, Gabriela
Antunes, Ceslestina Fernandes,
Cremilda Lima, Maria João, Rosalina Pombal e Zaida Dáskalos. (por ordem alfabética) |
Do ponto de vista histórico,
o romance é o género literário mais recente em Angola e de um modo geral
nas literaturas africanas. A poesia, a narrativa curta, o conto, a narrativa
genealógica e retórica são géneros mais antigos que encontramos nas
literaturas orais dos
povos angolanos.
Originário da literatura ocidental dos séculos XVIII e XIX, durante a ascensão da burguesia e da sociedade industrial, o romance
é introduzido nas literaturas africanas com a implantação
do sistema colonial. Uma das manifestações mais evidentes da sua existência
no espaço angolano é a proliferação da
literatura colonial no
princípio deste
século.
De acordo com os resultados de pesquisas que realizei no Arquivo do Tribunal da Comarca de Benguela, consultando processos de inventário e de abertura de herança quando pretendia obter informações sobre as leituras e obras que circulavam em Benguela na época em que José da Silva Maia Ferreira por lá passou, cheguei a conclusões valiosas sob o ponto de vista sociológico.