ANGOLANIDADE : O CONCEITO E O PRESSUPOSTO




1. A partir da década de 60, a actividade literária dos angolanos impunha a intervenção de um discurso critico capaz de sustentar a originalidade dos textos que até ai tinham sido publicados e dos textos orais de que se vinha tendo conhecimento. Esse imperativo tinha em Mário Pinto de Andrade um dos mais qualificados e melhores expoentes que, desde os anos 50, assumiu o pioneirismo da divulgação da literatura angolana, produzindo concomitantemente uma teorização substantiva. Já em l95l, num trabalho ensaístico, Mário Pinto de Andrade levantava “O problema de uma cultura angolana seguindo de um esquema que era, contudo, estranho à maioria dos colaboradores da revista (Mensagem)”(Mário António, l96l). Tratava-se de um texto em que abordava a problemática das línguas bantu. O ensaísta português Alfredo Margarido aderia à causa das literaturas africanas nessa década. O reconhecimento da autonomia destas literaturas conduziram-no a uma abundante actividade crítica.

Em l96l, escreveu um “ ensaio significativo” sobre a poesia de Agostinho Neto em que “propunha a utilização do conceito de angolanidade, para definir a substância nacional angolana”(l980: 5). O conceito foi nesse momento, pela primeira vez, inserido num texto escrito. O escritor Costa Andrade escreveria igualmente logo a seguir, um artigo dedicado a “Dois poetas da angolanidade”(l962: 76-9l), encomendado por Mário Pinto de Andrade que preparava então um dos números da revista Présence Africaine consagrado a Angola. Numa entrevista concedida ao autor destas linhas, Costa Andrade afirmava que “a ideia de angolanidade como formulação da palavra em si(...) é de l959”. Na sua “Introdução a um colóquio sobre poesia angolana”, Agostinho Neto lamentava em l960, o risco da assimilação e da desreferencialização dos intelectuais angolanos que “(...) perturbados pelo processo de coisificação, esqueceram por muito tempo que existia a civilização africana.

Aceitaram a ideia de “coisas sem importância” para as culturas negras(...) não se voltaram para o lado mais importante da questão: para as tradições dos seus povos, para as suas línguas que não sabiam falar, para a filosofia, para a religião(...)”(l980: l40-l44). Reflectindo em l96l sobre a existência de uma “tradição literária angolana”, o ensaísta Mário António considerava que “(...) a nova poesia angolana é - o na medida em que, dentro da literatura de língua portuguesa, busca cantar de maneira diferenciada, um mundo diferente. O seu chão é uma cultura que não se pode dizer híbrida, mas em que as diferentes expressões culturais se apresentam carregadas de elementos uma da outra”(l96l b). Num texto datado de l964 e situando-se numa perspectiva contrária, Mário António advogava que “o qualificativo ‘ angolano’ só pode ser aplicado àquilo que apresenta integrado no resultado duma acção histórica, processada pela Presença Portuguesa, que é aquela mesma que deu significado à palavra “Angola”. Mário António sustentava aqui as teses do luso-tropicalismo, teoricamente elaborado pelo sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, no seu livro “Casa Grande e Sanzala”.

Estas teses são corroboradas na sua colectânia de ensaios “Luanda- Ilha crioula” onde aquela” presença portuguesa dá lugar à caracterização de uma matriz crioula”e que se confunde com a angolanidade enquanto resultado da hegemonia política lusa. O contacto de culturas acaba por ser visto como uma virulenta fagositose. Por essa razão, no dizer de Mário António, a literatura angolana”(...) patenteia uma ânsia de valorização desse veio crioulo, o que, ainda quando os autores pareçam optar por teorias que são a sua negação, se impõe como o mais significativo da tradição que a modernidade angolana pretende continuar”(l964..39). Numa caracterização diferente daquilo que pode ser designado, na optica de Mário António , como “sujeitos da crioulidade”, Joseph Miller, um especialista norte americano da História de Angola, prefere a designação de luso-africanos.

É um termo que no seu entender, serve para identificar não somente uma raça ou uma cultura, mas um grupo economicamente especializado no século dezoito e que inclui imigrantes europeus que se associam aos naturais (l988:245-283). Embora cobrindo um mesmo domínio das relações sociais, concretamente um grupo social, nos seus conceitos respectivos Joseph Miller e Mário António visam objectivos distintos. O conceito do primeiro tem a sua utilidade no quadro da organização económica mercantilista. O segundo privilegia o intercurso sentimental e sexual dos portugueses para a explicação dos diversos fenomenos sócio-culturais. Os argumentos que subjazem a essa caracterização de Mário António foram sucessivamente retomadas por alguns historiadores. De uma maneira geral, na abordagem que fazem do do século XIX, dá-se demasiado relevo à composição racial daquela geração de escritores que se notabiliza nessa épóca. René Pélissier, por exemplo, afirma que “o nacionalismo africano [angolano] moderno é uma criação dos mestiços do século XIX” cuja”(...) força essencial provém do factor biológico”(l978:2l5). Ao atribuir-se a criação do nacionalismo moderno angolano aos angolanos mestiços vendo na sua acção uma referência de partida, nega-se por conseguinte qualquer filiação entre os movimentos de resistência (“nacionalismo das massas”) e os movimentos nacionalistas modernos. Essa tese é hoje insustentável perante os avanços dos estudos sobre a história das resistências africanas [2].

Na peugada de outros ensaístas angolanos, escrevi, em l984, uma comunicação que apresentei a um colóquio consagrado ao tema da identidade nas literaturas africanas em língua portuguesa [3]. Defendia então um conceito de identidade enquanto projecto em cujo espectro se enquadra na angolanidade. Num livro que resulta do desenvolvimento e ampliação da comunicação a esse colóquio, José Carlos Venâncio fornece um conceito de angolanidade literária confundindo-o com um produto da acção da élite crioula, pois, no seu dizer, “não deixa de ser apanágio de minorias intelectuais”(1987:119). 2. Não é com menor inquietação que constato a ausência de uma concepção realista na focagem de investigadores como José Carlos Venâncio, quando analisam o fenómeno literário angolano e as características essenciais em que ela se consubstancia, resumidas na noção de angolanidade. Considero que esta categoria é expressão nuclear de manifestações culturais angolanas, encontrando-se por ela recobertas as práticas literárias orais e escritas. Se partirmos da ideia segundo a qual Angola, enquanto quadro de referência, é um espaço cultural africano, importará não perder de vista o substracto historico desse mesmo espaço.

Verifica-se que a população é constituida esmagadoramente por indivíduos de origem bantu cuja herança é ainda hoje visível, podendo as línguas ser tomadas como exemplo de peso. A fixação desta ideia há-de revelar a possibilidade de se instaurar uma ordem para o discurso cultural cujo objecto social é constituido pelo universo angolano. Há-de ser necessário então definir a base de encoragem e que doa o sentido àquela metáfora da expressão nuclear. A heterogeneidade étnica, cultural e linguística de Angola revela especificidades que escapam a qualquer denominador comum que lhe seja exterior. Tal denominador comum há-de provir dessa base de encoragem donde defluem os elementos de coerência.Esse ordenamento do discurso angolano tem de ser detectado nas referências e na memória que do ponto de vista psicossociológico conformam a identidade daquele sujeito colectivo. E numa perspectiva estritamente democrática ter-se-iam igualmente em linha de conta as culturas das minorias étnicas. Porém, isto não significa ignorar o contacto com a cultura portuguesa. Até porque a África não é o único continente em que se verificam processos de incorporação de empréstimos de outras culturas. Por isso mesmo, não compreendo as motivações que acompanham a construção de conceitos como dualidade cultural e crioulidade exclusivamente para legitimar a especificidade do colonialismo português em Angola.

Como compreender que essa especificidade do colonialismo português se não tenha traduzido em acções verdadeiramente peculiares. Terá sido a política da assimilação uma revelação pragmática?. É que arranco de premissas em que não cabe situar a crioulidade e as culturas étnicas bantu de Angola no mesmo plano categorial para referir o substracto sobre o qual repousa a angolanidade. A crioulidade pode ser entendida como negação da identidade cultural angolana. Num outro ângulo de visão será uma categoria que se aplica a uma classe de objectos diferentes do ponto de vista substantivo. Designa um grupo de indivíduos cujo repertório de identidade é um conjunto vazio, se for confrontado com uma identidade social mais ampla [4] . Donde virá a legitimação do carácter determinista da crioulidade que Mário António definiu na base de uma concepção organicista e tributária de um deslocado darwinismo social? José Carlos Venâncio retoma os argumentos daquele ensaísta, quando, ao tentar contradistinguir a angolanidade de moçambicanidade, observa que Moçambique independentemente da dualidade cultural”não dispõe de uma sociedade crioula(...) que sirva de eco aos enunciados literários e políticos da sua elite cultural e política(...)(l990:34). O que entender então por sociedade crioula?[5].

Para José Carlos Venâncio, a “sociedade crioula” angolana parece identificar-se com aquela “ classe intermédia” de que fala Adriano Moreira. Segundo este antigo Ministro das Colónias ideólogo da política ultramarina portuguesa, “os critérios de reconhecimento ou identificação de tal classe intermédia podem ser os mesmos que foram classicamente apontados para identificar a classe média metropolitana”(Adriano Moreira, l956). Só assim se compreende a seguinte asserção de José Carlos Venâncio:”(...)Diria então que angolanidade está adstrita à mundivisão de alguns daqueles que constituem a elite cultural, política ou urbana(...)”(l990:34). Esta focalização do problema não se afasta do que Adriano Moreira apontava nos anos 50”:(...) consideramos élites os grupos, maioritários ou minoritários, que se tenham revelado como uma força assimiladora, isto é, como fontes de divulgação de modelos de conduta socialmente relevantes”(l956). Deste modo, a élite é aquela “classe intermédia que abandona a cultura originária, mas adopta a missão de generalizar os costumes novos”(l965:l59-l89). Estas elaborações conceituais são hoje anacrónicas. 3. As linhas que se seguem, incidem sobre o conceito de angolanidade nos seus fundamentos, focalizando-o numa perspectiva ontológica como pressuposto para a produção de um discurso crítico-literário.

Sendo assim, a angolanidade congloba não só os resultados das estratégias de enunciação literária em língua portuguesa, mas de igual modo o sistema semiótico da oralidade, onde imperam outros códigos, nomeadamente paralinguísticos, cinésicos, proxémicos, lúdicos, etc. Donde se escoram as preocupações epistemológicas em fornecer uma definição instrumental da literatura angolana. Na verdade, o conteúdo do referido conceito, inserido no contexto em que se aplica, levanta antes de mais um problema de pressuposto. Ora, no plano categorial será um conceito-chave a partir do qual cada indivíduo define o seu lugar nna sociedade angolana e desencadeia os processos avaliativos dos objectos e seus atributos. Por isso, não acredito na formação como que sincrética da literatura angolana, cabendo o impulso inicial à língua ou à cultura portuguesa.

A ilustração da angolanidade inscreve-se naquele imperativo que visa impugnar a prática artificiosa do “assimilacionismo colonizador, o dualismo cultural, com vista a definição dos traços essenciais duma identidade nacional”, como diria Màrio Pinto de Andrade. E diz mais: “a angolanidade requer enraizamento cultural e totalizante das comunidades humanas, abarca e ultrapassa dialecticamente os particularismos das regiões e das etnias, em direcção à nação”[6] (5).Há, pois, que partir da articulação ordenada de determinados códigos de referência, isto, é, de uma ordem cultural pré-existente que induza a essa diversidade o sentido de identidade. Tenha-se em conta, a título de exemplo, que para a construção do Estado e da Nação, é fundamental a representatividade étnica no plano institucional. Tenham-se em conta que a consagração das línguas nacionais, numa visão prospectiva, concorre para a consolidação da Nação, além das virtualidades de sucesso que possibilita nas várias políticas sectoriais.

Como se vê, não esvazio o sentido histórico do conceito. É que a sua historicidade e, por conseguinte, os sujeitos para que remete a sua construção não se encontram fora desta realidade diversa, sob o ponto de vista étnico, linguístico, cultural e sociológico. Todavia, identificar como sujeitos da angolanidade “o protagonista desse dualismo ou dessa crioulidade”, é sem dúvida defender um reducionismo ingénuo e abolir todo o contexto histórico e cultural. Quando, em Maio de l990, escrevi em carta dirigida a José Carlos Venâncio, alegando que o sujeito da angolanidade era “a comunidade angolana”, eu aludia o sujeito colectivo porque este é constituido por uma diversidade de sujeitos individuais.Os processos de comparação e identidade social verificam-se no quadro do sujeito colectivo. Identificada aquela ordem necessária à produção de um discurso cultural legítimo, observa-se que as comunidades étnicas angolanas, desenvolvendo uma dinâmica própria, apresentam uma visão do mundo a que, de acordo com o historiador Théophile Obenga, designarei por visão bantu. Tal como se pode falar de “uma concepção global da existência, (...)de uma ideologia bantu”, não é de ignorar que “esta ideologia dos antigos povos bantu esteja presente nas mentalidades colectivas dos seus descendentes, que habitam nos nossos dias as cidades e as aldeias”(l985:l48).

Portanto, a comunidade ou as comunidades angolanas que considero, do ponto de vista macrossociológico, como sujeito colectivo, o sujeito da angolanidade, é o produtor da cultura, da tradição literária angolana. Esta tradição constitui, no dizer M.a M.Ngal, “um vasto texto virtual e objectivo (...) pré-existente, como uma concentração de determinismos” (l977:45-63). Quando o escritor angolano, enquanto indivíduo, empreende a construção do seu texto, está a re-actualizar aspectos da cultura angolana, isto é, “o vasto texto virtual e objectivo pré-existente”. Donde se explica a produção de representações sociais que se actualizam e se articulam a outros elementos da psicologia e do viver colectivos, do universo antropológico. A noção de memória colectiva tem aqui um importante valor heurístico. 4. A categoria de angolanidade vem consagrar a dimensão semântica, a base fornecedora de sentido à modalidade do discurso cultural angolano que é a literatura. Estou a invocar a validade da noção de ordem cultural, onde se inscreve a visão bantu, entendida na acepção filosófica, como fundamento. E nesta linha que se insere a alusão ao critério ideológico de que a crítica tem de lançar mão. O ideológico assume sempre a veste de critério.

Condensa aquilo que se apresenta como “a concepção global do universo e das forças que o orientam(...), um tipo de visão realista, resultante da experiência dos homens e de reflexões sobre os equilibrios e tensões, ou os inevitáveis conflitos, necessários ao bom funcionamento do cosmos e da sociedade, do mundo dos deuses e dos homens”(T.Obenga, l985:l48). Afastando-me de construções eventualmente supérfluas, a propósito dos critérios úteis à crítica, importaria referir que a formulação do conceito em questão cai no âmbito das representações sociais e colectivas. Donde a angolanidade constitui a fonte substantiva da predicação e legitimadora dos valores, noções e práticas relativas à literatura angolana. Quando Costa Andrade glosou o conceito, numa das várias e necessárias tentativas, procurou detectar na poesia de Agostinho Neto e António Jacinto o aspecto da fonte legitimadora, pretendeu revelar a contraposição em face de outra especificidade cultural que se chama portugalidade. Costa Andrade estava a praticar um acto susceptível de enquadramento num “processo de ancoragem”.

Exercitava a actualização de elementos da identidade cultural angolana, integrando a poesia daqueles escritores num sistema de referencias pré-existente. Costa Andrade apresentava os índices do conceito nos seguintes termos:”Se a perspectiva do homem angolano lhe confere novas dimensões, não relativamente ao que seria a sua evolução natural como se desviada durante quatro séculos de colonização (...), isto não significa que deva ser visto como isolado das suas mais profundas e seculares raízes ou (...) como um mestiço cultural -produto do cruzamento Branco-Negro, resultado do choque Europa-África, como o pretendem muitos intelectuais bem-querentes que, sentimentalmente anti-racistas, talvez racionalmente anti-colonialistas, procuram, todavia, atenuar as acções do colonialismo propondo uma “amizade sincera” com base na interpenetração de culturas.

Como se fosse possível admitir uma honesta teória de vasos comunicantes nas relações colono-colonizado”(l962:76-9l). Para lá de instituir o processo de intertextualidade que mantemos com versão de Costa Andrade, a citação visa reorientar o debate, após trinta anos passados. 4.Neste esforço entificador, a angolanidade apresenta duas dimensões categoriais: - uma angolanidade-pressuposto é a herança e a memória colectiva, “o vasto texto virtual e objectivo da tradição”; - uma angolanidade literária é a actualização criadora daquela dimensão observável na enunciação e interpretação dos textos. Por isso, reputo de grande utilidade o conceito de representação social que pode perfeitamente traduzir a função e os contornos da angolanidade literária. Esta dimensão surge como um processo de categorização e de identidade social, ou seja, de conhecer e sentir a pertença à cultura angolana. Com efeito, à angolanidade literária subjaz uma angolanidade- pressuposto que comporta uma experiência, um sistema de referências, uma memória colectiva, um sentido de passado ou história, sobre o qual assenta a estratégia dos escritores.

O texto literário é assim a materialização de uma das várias modalidades possíveis da experiência angolana. É essa pregnância de determinismos que sustenta o princípio constitutivo dos textos literários, enquanto objectos que conformam a literatura angolana. Por exemplo, e Voz de Angola Clamando no Deserto, História de uma Traição, Sagrada Esperança, Luanda, O Signo do Fogo são textos que pertencem à literatura angolana porque neles são reconhecidos atributos categorizadores da angolanidade. Estes atributos categorizadores apresentam-se como modos de um espaço psicológico e social em que interagem aspectos racionais e irracionais do imaginário, involvendo factores historicos, estéticos, religiosos, éticos, etc. Eles permitem detectar a alteridade do texto angolano. O sentir a pertença à cultura angolana verifica-se em qualquer um dos textos mencionados. Luanda é uma obra que não pode pertencer à literatura portuguesa. João Gaspar Simões, o prestigiado crítico português, que integrou o júri da Sociedade Portuguesa de Escritores quando em l965 foi atribuido o prémio de novela a este livro de Luandino Vieira, justifica, em l974, a sua recusa de voto:”(...)uma coisa é ser-se autor português, outra “(...)o falar dos personagens e o falar do próprio autor das estórias da gente desses musseques(...)é um falar regional, o falar de um povo que, como o brasileiro, mais tarde ou mais cedo, independentemente, atingirá diferenciação(...)”(l98l:4l4).

O acesso às estruturas profundas de Luanda implica interpretar os contextos que estão subjacentes às motivações das personagens, aos seus registos linguísticos e às situações ficcionais. E compreeder a psicologia de Vavô Xixi Hengele significará partilhar um conhecimento comum do contexto pressuposicional, ou seja, dos elementos que completam a angolanidade-pressuposto. No poema Mussunda Amigo, o poeta Agostinho Neto realiza a sua interpelação do viver colectivo, ao escrever versos que o seu destinatário não entende. Apesar disso, o poeta diz: “Mas no espírito e na inteligência nós somos! No meu caminho e no teu caminho os corações batem ritmos de noites fogueirentas os pés dançam sobre palcos de místicas tropicais Os sons não se apagam dos ouvidos” A inaugural apologia da diferença e definição de uma identidade social positiva, no princípio deste século, é feita por aqueles tribunos, “filhos do país” que viam no uso da palavra escrita um instrumento de “vingar o indígena da nota de indolente, e do labéu de destituído de senso moral”.
Num opúsculo com oito textos de protesto vigoroso, refutando as teses da doutrina racialista, esses publicistas produzem uma imagem positiva das populações angolanas. Mas é também a sua própria imagem.

Em Voz de Angola Clamando no Deserto defende-se a diferença em relação ao país colonizador, uma diferença que se torna visível na evocação da história. Defendem-se aspirações de dignidade, conservação da personalidade e emancipação. Em Solemnia Verba, o texto de abertura, lê-se:”(...) o fim da política é rebaixar os seus direitos e assassinar o nível intelectual do indígena, para haver sempre o pretexto de preferir, e praticar as mais flagrantes injustiças, ainda aos mais habilitados, e assim procrastinar a época da emancipação da colónia, que, a nosso ver é inevitável por mais artimanhas políticas que possam inventar( sublinhado meu)(l90l:28). A existência de situações de conflito como sinal de dinamismos e vitalidade no seio desse grupo de tribunos, é-nos dada pelo testemunho de Paixão Franco em História de Uma Tradição.Relata-se aí uma fricção entre jornalistas, um caso que gravita em redor de estratégias concernentes ao exercício da liberdade de imprensa, na conjuntura”fim de século”. As respostas a estas questões na literatura angolana representam formas de interpelação do nosso viver colectivo e ser profundos. Tal interpelação é feita por intermédio de sintaxes e semânticas em que intervém um sujeito cujo nome e assinatura acompanha os textos. E que o tempo e o espaço, ou seja, a história e a geografia relativizam.

voltar
Os textos aqui expostos estão protegidos por © Copywright

para mais informações envie um email para a EBONet